Origens dos cães: Introdução

Quando consideramos as grandes variações existentes entre as diversas raças caninas (dogue alemão, buldogue, terrier maltês, etc) talvez seja difícil acreditar que todas sejam exemplos de uma única espécie, o cão doméstico,Canis familiaris. Realmente, o formato e a configuração de alguns cães fazem com que se tenha a impressão de que eles sejam parentes de outros animais, apesar de sabermos que isso não é verdade.
Poucos ramos do mundo animal apresentam uma variação tão grande em termos de tamanho, formato, tipo de pelagem e de comportamento como as raças caninas.
Os pôneis de Shetland são muito diferentes dos cavalos árabes, mas ninguém hesitaria em classificá-los como cavalos. Algumas variedades de camundongos são diferentes de outras, mas essa diferença não se compara entre um velho cão pastor inglês e um whippet!
Praticamente, toda essa grande variação na forma dos cães é um resultado da influência humana, pois nenhum animal possui uma história de domesticação tão longa quanto o cão. Sua história, aliás, teve início muito antes da história do homem.

 

 
 
 


Pré-história
Para investigarmos a origem do cão é necessário também considerar a evolução dos seus parentes mais próximos, porque é neles que reside uma grande parte do mistério relacionado com o passado canino. Os mamíferos, ou seja, os animais de sangue quente, cobertos de pêlos e que amamentam seus filhotes, são um desenvolvimento relativamente recente dentro da evolução dos animais. Os primeiros estágios deste desenvolvimento ocorreram durante o período cretáceo, que teve início há aproximadamente 140 milhões de anos. Naqueles tempos, os mamíferos e os dinossauros coexistiam. Os creodontes eram um grupo de mamíferos primitivos e essas pequenas criaturas carnívoras deram origem a um animal semelhante á doninha, chamado miacis, considerado o ancestral primitivo de ursos, gatos e outros animais carnívoros, inclusive o cão. O miacis viveu há cerca de 40 milhões de anos (numa época em que os macacos tinham apenas começado a se desenvolver) e era completamente diferente dos cães atuais: possuía cinco dedos, patas chatas, era capaz de subir em árvores e suas unhas eram retráteis, como as dos gatos.
Há cerca de 19 milhões de anos, um outro ancestral fóssil do cão desenvolveu-se a partir do miacis. Este animal, conhecido como cynodictis, perdeu o quinto dedo, que havia se transformado numa espécie de casco rudimentar. É do cynodictis que descenderam os verdadeiros antecessores primitivos do cão, o cynodesmus.
O cynodesmus era um mamífero muito maior do que os seus predecessores. A ele sucedeu o tomarctus, cuja a aparência era muito semelhante á do cão, e, realmente, os restos de seu esqueleto são praticamente indistinguíveis dos de lobos ou cães selvagens atuais. Entre o tomarctus e o aparecimento do homem (que ocorreu há apenas 2 milhões de anos), restos fósseis encontrados sugerem que muitas criaturas semelhantes aos cães se desenvolveram,apesar de elas não terem tido muita importância em relação aos nossos cães atuais. Basta dizer que o tomarctus deu origem a todas as espécies de canídeos (lobos, chacais, raposas, hienas e cães). Todos esses animais apresentam uma formação óssea similar e são predadores rápidos, com boa visão, boa audição, um olfato aguçado, além de dotados de uma excelente resistência física.
Até ai a história é relativamente simples, fornecendo-se 140 milhões de anos de desenvolvimento evidente; no entanto, no decorrer dos últimos milhares de de anos, a história do cão se complica. Parece que há, uma espécie de elo perdido que, caso fosse encontrado, nos permitiria determinar o ancestral direto do cão sem deixar margem a qualquer tipo de dúvida. Possivelmente, este ancestral foi o próprio tomarctus, e talvez os lobos e os chacais sejam primos de desenvolvimento do cão; mas também não se pode descartar simplesmente a hipótese de o lobo ter sido este ancestral.

A evolução da família canina e de outros mamíferos, a partir do miacis pré-histórico
(Fonte: Michael Geary)
Bom, antes de considerarmos a teoria da descendência a partir do lobo, é importante procurar evidências que eliminem os demais canídeos da linha de ancestrais diretos do cão. A raposa, apesar de não caçar em grupo, tem semelhanças formais com algumas raças de cães. Entretanto, cruzamentos entre um cão e uma raposa não são férteis (no caso extremamente improvável de ocorrer um tal cruzamento, onde seus cromossomos não são semelhantes). O período de gestação da raposa é de cinquenta dias, ou seja, treze dias a menos do que o cão, cuja gestação se completa após sessenta e três dias. Outras variações, tais como o formato da pupila dos olhos e a estrutura das patas, implicam que as raposas não podem ser consideradas como sendo parentes muito próximo aos cães; da mesma forma, as hienas, pois seus filhotes nascem de olhos abertos, possuem mais mobilidade e são mais ativos do que os filhotes de cães ou lobos.
Os chacais e os coiotes estão muito próximos aos cães e os cruzamentos entre estes animais são férteis. (Isto, de uma maneira geral, é uma indicação da existência de um parentesco muito próximo no reino animal). Entretanto, existem algumas diferenças de estrutura óssea entre chacais, coiotes e cães, o que sugere que eles tenham algum parentesco, mas não pertencem a uma mesma espécie. Na austrália, habitat natural do dingo, está se tornando cada vez mais difícil encontrar dingos que não possuam sangue de cães domésticos em sua linhagem.

Da esquerda para a direita: Coiote, Dingo Australiano e Chacal.
(Fonte: National Geographic) 
A maioria das autoridades especializadas no assunto acredita que o canídeo "selvagem" mais próximo seja o lobo, e existem realmente diversas evidências que os cães modernos sejam descendentes diretos dos lobos. A formação dentária desses lobos apresenta pouca diferença em relação á dos cães, os lobos podem cruzar com os cães e procriar. Uma marcante diferença na reprodução de cães e de lobos, no entanto, é o fato de as lobas entrarem no cio apenas uma única vez por ano, sendo que as cadelas normalmente o fazem duas vezes, se bem que isso poderia ser explicado pela ação seletiva do homem. Os lobos caçam em bandos, são muito sociais dentro de suas alcatéias e, mais importante ainda, são capazes de reagir de maneira favorável á domesticação.
Essas comparações entre os parentes mais próximos dos cães domésticos, apesar de serem muito válidas, não nos fornecem uma resposta á nossa questão inicial: quem é o ancestral direto do cão?
Existem duas respostas possíveis:
1° - É que o cão seja um "lobo modificado" e que sucessivas gerações tenham resultado nos nossos cães atuais. Se este for o caso, então ocorreram algumas modificações no decorrer das gerações, que acabaram resultando em cães com grandes variações em relação ao tamanho e ao formato. Alguns apresentam o gigantismo, como o deerhound, ao passo que outros, como o pequinês, apresentam uma miniaturização. Outras modificações resultaram na mudança do formato da cabeça, dentes ou maxilares, relativamente menores, em variações na postura da cauda e das orelhas. O homem também deve ter feito uma seleção em relação á maturidade precoce (a maioria dos cães é capaz de procriar a partir dos seis meses, ao passo que os lobos somente atingem a maturidade sexual a partir dos dois anos) e também a uma fertilidade elevada.

Pequinês, raça antiga da China tem o nome da capital de seu país, onde eram cães desde o tempo da dinastia Tang, no século VIII. O roubo de um exemplar era punido com a morte, o que não impediu que os primeiros exemplares chegados á Inglaterra em 1860 fossem roubados do Palácio de Verão.(Fonte: A GUIDE TO THE DOGS OF THE WORLD)

Deerhound, uma das mais antigas raças das Ilhas Britânicas, seus antepassados podem ter sido trazidos pelos fenícios. Este galgo se desenvolveu nos altiplanos da Escócia. Em Perthshire, pinturas nas cavernas datadas de antes de Cristo mostram galgos de pêlo duro caçando lobos e veados.
(Fonte: A GUIDE TO THE DOGS OF THE WORLD)

 
2° É a de ter existido um canídeo mutante, que teria sido o ancestral direto dos cães. Existe uma teoria segundo a qual este cão primitivo se desenvolveu no norte da Ásia antes mesmo de o homem aparecer em cena; no entanto, até o momento, não foi encontrado qualquer fóssil que pudesse provar essa teoria. Da mesma forma, também não existe nada capaz de colocar essa teoria por terra, uma vez que essa região ainda não foi profundamente estudada e pesquisada em termos arqueológicos.
 

 

 
 

A domesticação dos cães,e a pergunta é.Porque houve a domesticação?

Pouca importa saber se o primeiro encontro que o ser humano teve com um canídeo foi com um lobo ou com alguma forma anterior do cão; de qualquer maneira, pode-se ter certeza de uma coisa: o cão manso, obediente, cheio de amor com os seres humanos, não apareceu repentinamente. A domesticação é um processo longo, no qual um animal é criado de maneira progressiva e seletiva em função da sua capacidade de manter contatos "sociais" com o homem. A domesticação, no entanto, é algo completamente diferente do amansamento.
Hoje em dia há uma grande precipitação por parte da maioria em ralação a amansamento e domesticação, então vamos esclarecer a diferença entre AMANSAMENTO e DOMESTICAÇÃO:
- AMANSAMENTO: é possível treinar um leão (ou qualquer outro animal selvagem e feroz) a não matar seres humanos, a realizar determinados truques, a obedecer certos comandos, mas esse comportamento permanece como característica de um único animal individual. A mansidão não é transmitida para as gerações seguintes. Por exemplo: filhotes de leão, nascidos de pais MANSOS, não são mansos, a não ser que sejam sujeitos ao mesmo tipo de treinamento ao qual seus pais foram submetidos. Quando libertados em seus ambientes naturais, eles reagirão como qualquer leão selvagem.
- DOMESTICAÇÃO: é conseguida promovendo uma seleção contínua dos animais mais tratáveis e mais adaptáveis ao convívio humano e cruzando-os de maneira que o resultado final seja um animal que além de ser tolerante em relação ao homem, também procure ativamente a convivência com ele. Com seis semanas de idade, filhotes de hienas nascidas em cativeiro demonstram uma acentuada agressividade em relação ao homem, sempre evitando ao máximo o contato com ele. Por outro lado, os filhotes de cães domésticos correm tropeçando ao encontro dos seres humanos, convidando-os para brincar. Esses filhotes, sentem-se felizes quando estão na companhia do seu dono, onde o desejo de manter contato com o ser humano é claramente instinto, congênito, pois ainda não receberam nenhum tipo de ensinamento para agirem dessa maneira. Foram necessários milhares de anos para que os cães conseguissem chegar a esse estágio.
Entretanto, a domesticação do cão pelo homem é mais do que somente uma associação; trata-se de um processo bem complexo, que resultou em comportamentos selecionados no sentido de os animais servirem para guarda, caça, pastoreio e transporte. Essas característica se completaram muito bem com o desejo inato do cão no sentido de ter contatos sociais com o homem, pois não faria muito sentido ter um ótimo cão de caça que tivesse comportamento agressivo e anti-social em relação ao seu dono.
Assim, são diversas as características físicas e de comportamento do cão que o tornam mais predisposto á domesticação doo que outros animais. Em primeiro lugar, ele tem um tamanho conveniente para conviver com o homem dentro de sua habitação. Em segundo lugar, o fator de ele ser um caçador de predadores que atua em grupo é de grande valor para o homem. Em terceiro lugar, ele alcança a fertilidade mais cedo, tem um período curto de gestação e produz um grande número de filhotes, de maneira que o homem tem a possibilidade de ter um grande número de filhotes e que poderá selecionar os que possuem as características mais desejadas.
O que devemos sempre lembrar, é que um dos fatores mais importantes é que a espécie canina possui uma ampla gama de características físicas e de comportamento que é transmitida como herança genética. As variações dentro de cada raça geralmente costumam ser bastante estáveis, e as "regressões" não são muito frequentes. Uma cadela sociável cruzada com um macho também sociável geralmente tem filhotes que demonstram uma amistosidade ainda maior do que a dos seus pais, e, o mais importante, essa amistosidade costuma ser apresentada por todos os filhotes da ninhada; um filhote "bravo, incontrolável" seria exceção.
Também encontramos estabilidade genética em relação a comportamentos mais complexos, tais como o pastoreio de carneiros ou a habilidade para caçar. Caso isso não ocorresse, o homem nunca teria sido capaz de desenvolver tantas raças com especialidades diferentes.
Enfim, durante toda a era da evolução canina, onde é constante, o homem vem escolhendo o melhor exemplar para a procriação, o homem acabou conseguindo produzir cães que apresentassem todas as características possíveis desejadas.

Este auto-relevo assírio, encontrado em Asshur-bandi-pal, mostra que a caça foi uma das primeiras utilizações que o homem civilizado encontrou para os mastins (Fonte: The Mansell Collection)
 
Os motivos que levaram a domesticação, a data na qual ela ocorreu e quem foi o responsável por ela são coisas a respeito das quais apenas podemos criar especulações, tomando por base poucos fatos, que por sinal são extremamente vagos.
Como já disse anteriormente, o cão, com toda a probabilidade, não deve ter se associado repentinamente ao homem; o processo de domesticação deve ter ocorrido de uma maneira gradativa. É possível imaginar que ele tenha sido atraído para as imediações dos acampamentos humanos pela existência de ossos e pedaços de carne estragada, que foram jogados fora.. É possível imaginar um grupo de cães se associando a alguma tribo, começando a se movimentar com ela quando os homens saíam á caça em busca de novos alimentos. É provável que esses cães tenham demonstrado algum valor aos homens, latindo quando algum intruso (um outro homem ou algum animal) se aproximava do acampamento. 
Os  homens talvez reconhecessem os animais pela sua pelagem e lhes jogavam restos de comida de vez em quando, como fazem as tribos primitivas da Nova Guiné, que têm cães vivendo em conjunto com eles nas suas aldeias, onde esses cães se alimentam com as sobras e dessa maneira ajudam a manter limpos os arredores das aldeias. É bastante provável que, gradativamente, esses cães tenham sido absorvidos pela "vida do acampamento", e, sentido que os homens não os espantavam, devem ter começado a reconhecer o homem como um amigo e alguém que lhes fornecia alimentos (UM INCENTIVO MUITO IMPORTANTE PARA A DOMESTICAÇÃO).
A caça aos alimentos pode ter sido outro elo de importância vital na associação entre o cão e o homem. Possivelmente, bandos de cães acompanhavam o homem quando ele caçava longe do acampamento e o ajudavam a levantar e matar a caça. O homem talvez tivesse escolhido os cães mais silenciosos para esta finalidade; afinal, cães que latissem alto teriam amedrontado e afugentado prematuramente as manadas de veados ou bois. Sendo assim, o sábio homem primitivo pode ter reconhecido esses cães mais indicados para a caça e feito cruzamentos entre eles, se bem que é provável que isso somente tenha acontecido mais tarde.
Diversas situações de caça podem ter resultado numa necessidade de cães com diferentes características. Para a perseguição de animais tímidos, o homem talvez necessitasse de cães silenciosos, que latissem furiosamente apenas quando chegasse perto da presa, alertando dessa maneira o homem para o ataque final. Cães de caça fortes e corajosos eram necessários para a caça de animais de grande porte, como bois e ursos selvagens; cães rápidos e com boa visão, para a caça de lebres e coelhos; e cães com um excelente olfato, para detectar o primeiro sinal de alguma manada distante. CERTAMENTE, O PRINCIPAL ELO ENTRE O HOMEM E O CÃO DEVE TER SIDO O FATO DE AMBOS SEREM PREDADORES E CAPAZES DE COOPERAR NA CAÇA, PODENDO TAMBÉM SIDO ÚTIL COMO ANIMAL DE TRAÇÃO NO TRANSPORTE DE ESQUIMÓS PELOS TRENÓS.
Enfim, na medida que o homem foi compreendendo melhor o valor do cão sobre a sua vida, ele pode ter passado a considerá-lo um deus. É provável que  cão, ao contrário de outros animais selvagens e temidos, tenha sido algo menos misterioso para o homem primitivo, uma vez que este podia compreendê-lo e, até certo ponto, impor-lhe um determinado comportamento Os egípcios adoravam Anúbis, o seu deus cão, animal semelhante a um chacal.
 
 Os galgos eram cães de caça muito populares entre os antigos romanos.
(Fonte: Sonia Halliday)

 

 

 

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